O NOVO E EXTRAORDINÁRIO COMEÇA NO ALTAR
Texto principal: Juízes 6:1–34
INTRODUÇÃO
Israel estava vivendo uma das maiores crises de sua história. Durante sete anos, os midianitas invadiam a terra, destruíam as plantações e levavam os animais. O povo semeava, mas não conseguia desfrutar da colheita. Trabalhava, mas via o resultado de seu esforço desaparecer. A opressão havia se tornado tão intensa que os israelitas começaram a construir esconderijos nas montanhas, nas cavernas e nas fortalezas.
Gideão representa muito bem aquele momento. Ele estava malhando trigo em um lagar, escondido dos midianitas. O lagar era lugar de pisar uvas, não de malhar trigo. Gideão estava trabalhando no lugar errado porque o medo havia alterado sua rotina. Ele possuía trigo, mas não tinha liberdade. Possuía uma colheita, mas precisava escondê-la. Estava vivo, mas vivia aprisionado pelo medo.
Foi nesse cenário que o Anjo do Senhor apareceu e declarou: “O Senhor é contigo, homem valente.” Juízes 6:12
Gideão respondeu: “Ai, senhor meu, se o Senhor é conosco, por que tudo isto nos sobreveio? E que é feito de todas as suas maravilhas que nossos pais nos contaram?” Juízes 6:13
Gideão fez uma pergunta que muitas pessoas também fazem: “Se Deus está comigo, por que estou vivendo tudo isso?” Ele queria saber onde estavam os milagres, por que as histórias do passado não se repetiam e por que Deus permitia que Israel fosse humilhado.
Gideão cobrava uma resposta de Deus, mas ainda não havia entendido que a crise não começou com os midianitas. A invasão era consequência de um problema espiritual anterior. Israel havia abandonado o Senhor e levantado altares a Baal. Antes de existir um inimigo roubando a colheita do lado de fora, já existia um ídolo roubando o coração do povo do lado de dentro.
O povo queria que Deus removesse os midianitas, mas Deus queria remover Baal. Israel desejava uma nova colheita, mas Deus exigia um novo altar. Gideão procurava uma explicação para a crise, enquanto Deus procurava alguém disposto a corrigir o culto.
Não podemos cobrar de Deus uma resposta extraordinária enquanto oferecemos a Ele uma adoração comum e preservamos altares que O desonram.
- GIDEÃO COBRAVA UMA RESPOSTA, MAS NÃO PERCEBIA QUE A CRISE ERA GERADA PELA IDOLATRIA
Juízes 6:1–13
Gideão olhava para os midianitas e enxergava a causa do sofrimento. Deus olhava para Israel e enxergava algo mais profundo. Os midianitas eram o instrumento da opressão, mas a raiz da crise estava no afastamento espiritual do povo.
Juízes 6 começa declarando: “Porém os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor; e o Senhor os deu nas mãos dos midianitas por sete anos.” “Eu sou o Senhor, vosso Deus; não temais os deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; contudo, não destes ouvidos à minha voz.” Juízes 6:1; 10
Israel não estava sofrendo porque Deus havia perdido o poder. Estava sofrendo porque havia abandonado a aliança. O Deus que abriu o mar continuava poderoso. O problema não estava na capacidade de Deus, mas na infidelidade do povo.
Gideão perguntava: “Onde estão as maravilhas?” Deus respondia: “Vocês não deram ouvidos à minha voz.” Gideão queria falar sobre o silêncio de Deus, mas Deus queria falar sobre a desobediência de Israel. Gideão cobrava a manifestação divina, mas não percebia que o povo havia transferido sua adoração para Baal.
Baal era cultuado pelos cananeus como uma divindade relacionada à chuva, à fertilidade da terra, à produção e à prosperidade. Israel passou a buscar em Baal aquilo que deveria receber do Senhor. Contudo, quanto mais adorava o suposto deus da fertilidade, mais perdia sua colheita. Quanto mais buscava prosperidade no altar errado, mais empobrecia.
Essa é a fraude de todo ídolo. Ele promete segurança, mas produz escravidão. Promete satisfação, mas aumenta o vazio. Promete controle, mas termina controlando quem o adora.
Também podemos cometer o erro de Gideão. Perguntamos por que a família está enfraquecida, mas não examinamos o altar da casa. Perguntamos por que perdemos a paz, mas alimentamos hábitos que afastam nossa mente de Deus. Cobramos direção, mas não obedecemos àquilo que já foi revelado. Pedimos que Deus mude o ambiente, enquanto resistimos à mudança que Ele deseja realizar dentro de nós.
O problema de Israel não era apenas que os midianitas entravam todos os anos. O problema era que Baal já havia entrado no culto, na cultura e dentro das famílias. O inimigo exterior apenas revelou a fraqueza espiritual que já existia interiormente.
Gideão precisava compreender que a pergunta não era somente: “Por que Deus permitiu isso?” Ele também precisava perguntar: “Em que momento deixamos de ouvir a voz de Deus?”
Antes de cobrarmos uma resposta do céu, precisamos permitir que a Palavra examine nossos altares. Às vezes, a resposta que esperamos não começa com Deus mudando a situação, mas conosco reconhecendo aquilo que precisa ser corrigido.
- GIDEÃO OFERECEU O QUE LHE PARECIA SUFICIENTE, MAS DEUS EXIGIU O BOI DA CASA DE SEU PAI
Juízes 6:17–26
Depois de questionar o Anjo do Senhor, Gideão pediu um sinal. Ele entrou em casa, preparou um cabrito, fez pães sem fermento com uma grande quantidade de farinha e levou também o caldo. O Anjo mandou que Gideão colocasse a carne e os pães sobre uma rocha. Em seguida, tocou a oferta com a ponta do cajado, e fogo saiu da rocha, consumindo tudo.
O cabrito não era uma oferta insignificante. Israel estava vivendo escassez, e os midianitas roubavam os animais e as plantações. Preparar um cabrito e utilizar tanta farinha naquele contexto representava custo, honra e hospitalidade. Gideão colocou diante do Anjo aquilo que, aos seus olhos, parecia adequado e suficiente para aquele encontro.
Deus recebeu a oferta. O fogo que saiu da rocha mostrou que aquele momento havia sido aceito. Porém, o Senhor não encerrou o tratamento de Gideão naquele cabrito. Na mesma noite, Deus fez uma exigência mais profunda:
“Toma o boi de teu pai, a saber, o segundo boi de sete anos, e derruba o altar de Baal, que é de teu pai, e corta o poste-ídolo que está junto ao altar. E edifica ao Senhor, teu Deus, um altar no cume deste lugar forte, num lugar conveniente; e toma o segundo boi e o oferecerás em holocausto.”
Juízes 6:25–26 Gideão havia escolhido o cabrito que ofereceria, mas Deus escolheu o boi que deveria ser entregue. O cabrito saiu daquilo que Gideão estava disposto a apresentar. O boi tocava o patrimônio, a estrutura espiritual e a autoridade da casa de seu pai.
O texto não afirma de maneira direta que aquele boi já estava separado para ser sacrificado a Baal. Portanto, não devemos transformar uma possibilidade em certeza bíblica. No entanto, essa é uma leitura possível dentro do contexto. O boi pertencia a uma casa que mantinha um altar de Baal e um poste dedicado a Aserá. É provável que os animais daquela propriedade também fossem utilizados na manutenção econômica ou nas práticas religiosas ligadas àquele sistema de idolatria.
Ainda que não possamos afirmar que o boi já estivesse prometido a Baal, algo é certo: ele pertencia à casa que sustentava o altar de Baal. Deus tomou um recurso daquela estrutura idólatra e ordenou que fosse consagrado ao verdadeiro Senhor. O boi que estava sob a administração de uma casa dividida seria colocado sobre um novo altar.
Existe aqui uma diferença entre o culto que Gideão decidiu oferecer e o culto que Deus exigiu. Gideão ofereceu aquilo que lhe parecia suficiente, mas Deus apontou para aquilo que precisava ser corrigido. O cabrito envolvia seus recursos. O boi envolvia a sua casa. O cabrito era uma oferta pessoal. O boi representava um rompimento familiar e espiritual. O cabrito poderia ser apresentado sem confronto. O boi exigia que o altar de Baal fosse derrubado.
Nós costumamos oferecer a Deus aquilo que não ameaça nossos altares, mas Deus toca exatamente naquilo que ocupa o lugar que pertence a Ele.
Gideão poderia oferecer dez cabritos e ainda manter Baal de pé. Poderia viver uma experiência com fogo e continuar voltando para uma casa dominada pela idolatria. Deus não queria apenas aumentar o valor da oferta. Ele queria mudar a direção do culto.
O Senhor também mandou que Gideão cortasse o poste de Aserá e utilizasse a madeira como lenha para o holocausto. Aquilo que servia à idolatria seria destruído e queimado no altar do Senhor. Deus não queria dividir espaço com Baal. O antigo sistema precisava ser desfeito para que um novo culto fosse estabelecido.
O boi tinha sete anos, exatamente o mesmo período da opressão midianita. O texto não explica diretamente a razão dessa correspondência, mas ela permite uma importante reflexão: aquele animal havia crescido durante todos os anos da crise. Enquanto Israel sofria, o boi era preservado. Agora, no começo da libertação, aquilo que atravessou os sete anos seria colocado sobre o altar.
Talvez a família de Gideão olhasse para o boi e enxergasse patrimônio, força de trabalho, segurança ou valor econômico. Deus olhava para ele e enxergava uma oferta. Muitas vezes, chamamos de segurança aquilo que Deus está chamando de entrega.
Queremos um culto novo e extraordinário, mas continuamos entregando a Deus apenas aquilo que consideramos suficiente. Cantamos, mas não obedecemos. Participamos da celebração, mas preservamos os altares particulares. Entregamos alguns minutos, enquanto outras coisas recebem nossas melhores horas. Oferecemos palavras, mas protegemos a vontade. Damos a Deus o cabrito, mas escondemos o boi.
Somos intensos durante um jogo decisivo. Gritamos, levantamos as mãos, mudamos compromissos, vestimos a camisa e permanecemos atentos até o último minuto. Para uma viagem, acordamos de madrugada sem reclamar. Para uma festa importante, escolhemos a roupa, chegamos preparados e reorganizamos a agenda. Para uma série, encontramos tempo para assistir a vários episódios. Para uma compra desejada, fazemos planejamento e sacrifício.
Não há pecado nessas coisas quando ocupam o lugar correto. O confronto está no fato de que, muitas vezes, oferecemos mais entusiasmo ao entretenimento do que à presença de Deus. Chegamos atrasados ao culto, cantamos distraídos, ouvimos a Palavra olhando para o celular e tratamos a adoração como uma parte secundária da semana.
Deus não está disputando volume com um estádio. Ele está examinando a prioridade do nosso coração. O que amamos recebe nossa atenção. O que consideramos importante recebe preparação. O que adoramos recebe sacrifício.
O cabrito mostrava aquilo que Gideão queria oferecer; o boi revelava aquilo que Deus queria governar.
- GIDEÃO CORRIGIU SUA ATITUDE DIANTE DE DEUS, E O NOVO E EXTRAORDINÁRIO SE MANIFESTOU
Juízes 6:27–34
Gideão poderia ter argumentado. Poderia dizer que já havia preparado um cabrito, que sua oferta já havia sido consumida pelo fogo e que Deus deveria considerar aquele gesto suficiente. Poderia alegar que o altar pertencia ao seu pai, que não tinha autoridade para destruí-lo ou que a cidade inteira se levantaria contra ele.
Contudo, Gideão decidiu obedecer: “Então, Gideão tomou dez homens dentre os seus servos e fez como o Senhor lhe dissera.” Juízes 6:27
Ele ainda sentia medo. Por isso, realizou a ordem durante a noite. Mas o medo não o impediu de obedecer. Gideão não esperou deixar de sentir medo para corrigir sua atitude. Ele agiu apesar do medo.
Isso nos ensina que obediência não é ausência de conflito emocional. Obediência é colocar a vontade de Deus acima daquilo que sentimos. Gideão estava amedrontado, mas derrubou o altar. Estava inseguro, mas cortou o poste. Sabia que enfrentaria oposição, mas levantou um novo altar ao Senhor.
Gideão corrigiu três coisas fundamentais. Primeiro, corrigiu sua compreensão. Ele deixou de enxergar Deus como o responsável pela crise e reconheceu que havia idolatria dentro de seu povo e de sua casa. Segundo, corrigiu sua entrega. Ele saiu da oferta que considerava suficiente e apresentou aquilo que Deus havia exigido. Terceiro, corrigiu o altar. Baal foi derrubado e o Senhor voltou a ocupar o lugar central.
Quando os homens da cidade acordaram e perceberam que o altar havia sido destruído, exigiram a morte de Gideão. Porém, Joás, o pai que possuía o altar de Baal, respondeu: “Contendereis vós por Baal? Livrá-lo-eis vós? Se é deus, por si mesmo contenda.” Juízes 6:31
A obediência de Gideão começou a produzir transformação dentro de sua própria família. Joás, que anteriormente mantinha um altar de Baal, agora questionava a capacidade de Baal defender a si mesmo. Quando Gideão corrigiu sua atitude diante de Deus, sua decisão confrontou a casa inteira.
Ele também recebeu um novo nome: Jerubaal, aquele que contende contra Baal. O homem que anteriormente se escondia dos midianitas passou a ser reconhecido como aquele que desafiou o falso deus. A mudança do altar produziu mudança de identidade.
Então, o texto declara: “Então, o Espírito do Senhor revestiu a Gideão.” Juízes 6:34
Essa ordem é fundamental. Primeiro, Gideão corrigiu o altar. Depois, foi revestido pelo Espírito. Primeiro, obedeceu. Depois, recebeu autoridade. Primeiro, confrontou Baal dentro de casa. Depois, foi capacitado para confrontar os midianitas no campo de batalha.
Gideão queria começar pela manifestação do poder, mas Deus começou pela correção do culto. Ele queria reunir soldados, mas Deus primeiro o chamou para derrubar um altar. Queria libertar uma nação, mas precisava iniciar a transformação dentro da própria casa.
O revestimento que Gideão desejava só chegou depois que o altar que Deus rejeitava foi derrubado.
O novo e extraordinário começou a se manifestar quando Gideão deixou de apenas perguntar e começou a obedecer. Enquanto estava escondido e cobrando explicações, continuava preso à velha realidade. Quando corrigiu sua atitude diante de Deus, a casa foi confrontada, sua identidade foi transformada, o Espírito do Senhor o revestiu e uma nova história começou.
Isso não significa que conquistamos o poder de Deus por meio de obras ou sacrifícios humanos. A ação de Deus continua sendo resultado de Sua graça. Foi o Senhor quem encontrou Gideão, chamou-o e prometeu estar com ele. Contudo, a graça que chama também nos conduz à obediência. Deus não chamou Gideão para permanecer escondido, dividido e cercado de altares idólatras.
Queremos viver o novo e extraordinário, mas precisamos entender que Deus não unge nossa desordem para que permaneçamos nela. Ele nos chama para corrigir o altar. O extraordinário não é uma emoção produzida durante um culto. É a manifestação do governo de Deus sobre uma vida verdadeiramente entregue.
Quando Gideão corrigiu o culto, Deus mudou sua identidade, sua casa, sua autoridade e seu futuro.
CONCLUSÃO
Gideão começou cobrando uma resposta de Deus. Ele perguntou por que Israel sofria e onde estavam os milagres que seus pais contavam. Porém, não percebia que a crise estava ligada à idolatria do povo. Os midianitas eram o problema visível, mas Baal era a raiz invisível.
Depois, Gideão recebeu a visita do Anjo do Senhor e ofereceu aquilo que lhe parecia suficiente: um cabrito, pães e caldo. Era uma oferta valiosa em um tempo de escassez, e Deus a recebeu. Contudo, o Senhor mostrou que não buscava apenas um momento de culto. Exigiu o boi da casa de seu pai, a derrubada do altar de Baal e a construção de um novo altar.
Por fim, Gideão corrigiu sua atitude. Ele deixou de apenas cobrar respostas e começou a obedecer. Derrubou o altar errado, levantou o altar correto e ofereceu aquilo que Deus havia pedido. Então, o novo e extraordinário começou a se manifestar. Sua casa foi confrontada, sua identidade mudou, o Espírito do Senhor o revestiu e ele recebeu autoridade para iniciar a libertação de Israel.
Existe uma progressão nesta história:
Primeiro, Deus revela a verdadeira causa.
Depois, Deus confronta a qualidade da entrega.
Por fim, Deus responde à obediência com revestimento e propósito.
Talvez estejamos perguntando: “Senhor, onde estão as maravilhas?” E Deus esteja respondendo: “Olhe para o altar.”
Talvez estejamos entregando o nosso cabrito, participando dos cultos e fazendo aquilo que consideramos suficiente. Mas Deus esteja apontando para o boi, para uma área mais profunda, para algo que ainda permanece debaixo de outro governo.
O novo e extraordinário não começa quando Deus nos entrega aquilo que desejamos. Começa quando entregamos a Ele aquilo que ainda preservávamos.
Que altar precisa ser derrubado em nossa vida?
O que temos oferecido a Deus apenas porque nos parece suficiente?
Qual é o boi que representa aquilo que ainda não colocamos sob o governo do Senhor?
Pode ser nosso tempo, nossa vontade, nossa agenda, nossos recursos, nossos relacionamentos, nossos hábitos ou nossa necessidade de controlar tudo.
Hoje, Deus nos chama para corrigir o culto. Não apenas cantar com mais força, mas viver com mais entrega. Não apenas permanecer mais tempo dentro da igreja, mas colocar toda a vida sobre o altar. Não apenas pedir o extraordinário, mas reconhecer que um Deus extraordinário merece um culto extraordinário.
Quando corrigimos o altar, Deus corrige a direção, transforma nossa identidade e libera um novo e extraordinário futuro.Senhor, não queremos Te oferecer apenas aquilo que nos parece suficiente. Queremos entregar aquilo que revela que somente Tu governas nossa vida.
